23 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo II



Por exemplo, o Zeca. Era homem de muitos tiques. Tiques disto e daquilo. Há vinte anos, não morreu por causa de nenhum, mas ainda hoje é recordado por ter sido um dos primeiros a cantar a liberdade em voz alta aos ouvidos de um povo, até então, troglodita, cavernoso. Tal como há trinta anos, a liberdade ainda hoje é um prodígio nebuloso para a maioria dos portugueses, uma coisa de ficção científica, uma incerteza, uma imprecisão ou um mal que o mundo deu à luz. E nós agora, com o bebé nos braços. Perceber isso era um dos talhes do Zeca para quem a felicidade resultaria da complexa ligadura entre liberdade, justiça, solidariedade e igualdade. As suas músicas estão repletas deles, dos seus tiques volvidos detalhes, prontos a serem colhidos como quem colhe laranjas da frondosa árvore no Inverno. Mas o principal tique de Zeca era saber e ousar dizê-lo a quem desconhecia ter asas. A quem esquece.

8 comentários:

silk disse...

na mouche. melhor homenagem à obra, ao homem, à importância que teve e ainda tem, ainda não vi hoje.. obrigado, ARV

DUDE disse...

sim, na mouche, contando também com o Sérgio Godinho, intimista.

Tem futuro o "puto".

A verdade é que quem tem tiques do tipo dos do Zeca, é considerado ainda e infelizmente "maluco".
Os propósitos são os mesmos, a foma é que se adaptou à essência da mentalidade no seu mais puro estado de devir quotidiano.

E agora, de quem é o erro genético? Do pessoal cujas palavras do Zeca, do Godinho, do Vinicius, de alguns Caetanos lhes pulula no sangue desde a primeira vez que as ouvem, ou daqueles que chamam "malucos" a esse pessoal?

malmequers disse...

A homenagem ao cantor para muitos, ao poeta para mim (a ligação afectiva a Coimbra gera este tipo de sentimentos).

Escrita de talhe e de-talhe(s), gosto, já o disse, por isso subscrevo as palavras dos teus amigos.
Um abraço,

Um Deus de uma Guerra Pacífica disse...

UTOPIA...

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
José Afonso subscrito por...
tantos!

Anónimo disse...

Um brinde, de quem as vai redescobrindo aos poucos e com muitos tiques! (...às asas)

um Deus de uma Guerra Pacífica disse...

Junto-me a ti na (re)descoberta das asas.

Beijos e abraços sejas Deus ou Deusa

malmequers disse...

Top nacional: Zeca Afonso chega a número um
07.03.2007 - 10h37 PÚBLICO
(http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1287586)

Não sei se é possível efectuar alguma leitura política desta conquista, mas pelo menos...destronou o Tony Carreira, um fenómeno que continuo sem perceber...
Parabéns, ZECA!

Fatima disse...

O talento é sem dúvida o melhor legado que podemos deixar nesta nossa breve passagem por este mundo.
A coragem uma das grandes armas para derrubar muros.

Já agora estou muito curiosa... quem será ARV que tão bem conhece a tradição de uma vila como o Redondo? Alguém da terra ou alguém que se interessa pelas tradições do nosso povo?