26 de março de 2010

A utopia da união entre governo e ideologia

Apesar do tempo cinzento ponteado aqui e ali por tímidos esgares primaveris, apesar do PEC e das ilusões pré-eleitorais, apesar das eleições no PSD, apesar dos incontáveis focos de fumo que indiciam os respectivos focos de fogo aqui e além em redor de S. Bento, apesar do consentido fartar vilanagem que compõe uma certa idiossincrasia, os únicos arquipélagos que temos localizam-se em pleno Oceano Atlântico. Ao contrário do arquipélago de Solienitsyne.

A propósito deste, há aspectos sobre os quais interessa reflectir, ainda que de forma esparsa. Desde logo ao nível da precariedade ideológica que terá dominado os que se agarraram ao poder, eventualmente emprenhados pelo aparelho partidário mas imunes à ideologia. Paradoxalmente, a leitura da grande obra de Solienitsyne dá a sensação de que, dentre todos os oprimidos pelo regime – delito comum e político – os presos políticos afectos à ideologia comunista tenham sido os mais castigados. Mais do que trotskistas, sociais-democratas e socialistas. Era inevitável: por um lado, o peso da coerência e do exemplo que pendia sobre eles aos olhos do «juiz» que lhes aplicava o artigo 58 (dez anos de fantásticas «aventuras» no arquipélago); por outro, a profunda perplexidade causada pela defesa ideológica de um regime que afinal os oprimiu. Contrariamente a todos os que serviram tanto o partido como dele se serviram.

A montante, como é evidente, os processos judiciais eram conduzidos de forma particularmente irracional e absurda. Tal é o caso dos seis mujiques kolkhosianos que, após a ceifa, passaram ingenuamente os campos a pente fino e recolheram os restos de espigas para os dar às suas vacas. Foram condenados à morte por delapidação do património do Estado. Se não trabalhassem num Kolkhose, possivelmente teriam apenas levado 10 anos. Ou um prémio… como os de cá, neste preciso tempo histórico, distribuídos pelas mais apetecíveis empresas que giram na esfera de influência do poder e pelos mais importantes cargos da magistratura.
Não se trata de reabilitar ideologicamente o marxismo. Não é preciso porque as experiências e o percurso titubeante do sistema capitalista são o seu principal alimento, como o demonstra a agudização das clivagens em tempo de insatisfação generalizada das necessidades primárias. Contudo, a precariedade ideológica forjada por grupos de indivíduos reunidos em aparelhos partidários parece ser contemporânea e reveladora de semelhante esvaziamento de valores. Lá, como cá, os que se regem desprendidamente por princípios ideológicos ou morais correm o risco de ir parar ao Gulag ou ao desemprego ou à prateleira.

2 comentários:

Anónimo disse...

Quais os partidos do mundo que ainda contêm alguma ideologia?

Alexandre disse...

Uma resposta possível (e cómoda): os partidos sem responsabilidades de governação estão menos condicionados pelas maiorias eleitorais. Uma resposta científica seria muito menos prosaica mas a posse e exercício de poder definem orientações distintas. Desde logo ao nível da arregimentação de eleitores tão heterogéneos quanto o grau de abrangência pretendido. No fundo, os partidos das franjas podem ser aqueles cujas preocupações permanecerão eminentemente ideológicas.